sábado, 15 de setembro de 2012

Presidenta Dilma mantém tortura de comunidades extrativistas na região Norte de Minas Gerais



Enquanto o toré saudava os participantes do VII Encontro dos Povos do Cerrado e as toras adentravam no adro do Congresso Nacional, enquanto os tambores dos batuques entoavam as canções de liberdade dos negros no Museu do Índio em Brasília, as comunidades extrativistas do Norte de Minas Gerais que foram a Brasília trazer o decreto de criação da RDS Nascentes dos Gerais (Ex RESEX Areião Vale do Guará) ainda tinham esperanças que a Presidenta Dilma anunciaria esta boa nova. Afinal, menos de um mês antes a presidenta estivera em Rio Pardo de Minas e na oportunidade eles entregaram mais um abaixo assinado pedindo urgência na criação da RDS. E, no dia 30 de agosto de 2012 enviaram o vídeo documentário ROMARIA DO AREIÃO (http://ufftube.uff.br/video/X5857XUON848/Romaria-do-Arei%C3%A3o)  à presidenta. Um vídeo que retrata a dura batalha de comunidades esquecidas que vivem nas altas serras e topos de morro da Serra do Espinhaço e que lutam pela proteção do seu território tradicional.
Foram informados que o Decreto de Criação da RDS já tinha passado por todos os trâmites e encontrava-se na mesa da Casa Civil à uma espera de decisão da presidenta. Ficaram sabendo então que o Ministério das Minas e Energia estava fazendo pressão para a não criação da RDS, fazendo coro aos interesses minerários do Governo do Estado de Minas Gerais.
Dissuadidos a não fazerem uma ação direta no Palácio do Planalto, o que os extrativistas do cerrado assistiram foi a embromação da Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, na audiência que concedeu no dia 13 de setembro às lideranças das organizações que atuam nos cerrados. Fazendo um grande jogo de cena, a Ministra afirmou desconhecer os andamentos dos processos de criação de RESEX e RDS nos Cerrados (ofícios, cartas, videodocumentários foram encaminhados para ela com a devida antecedência). Com uma eloqüência inaudita, prometeu recursos e ações para a proteção dos cerrados. Mas ignorou a necessidade urgente das comunidades que lutam pela legalização, titulação e demarcação das áreas indígenas e quilombolas, assim como os territórios de populações extrativistas.
Com promessas de verbas para as ONGs, com promessas de criação de ilhas de proteção nos cerrados bem ao gosto de ambientalistas que reivindicam unidades de proteção integral; áreas para que a elite brasiliense possa se deliciar nas ricas pousadas de fim de semana, ou que seus filhos possam tomar banho nas águas límpidas que nascem nos cerrados, antes que sejam emporcalhadas pelos agrotóxicos, esgotos e aterradas pelas terras contaminadas oriundas das grandes monoculturas e crateras minerárias.
                                                                                  Foto João Zinclar

O VII Encontro dos Povos do Cerrado chega ao fim e a tortura que as comunidades extrativistas enfrentam há 11 anos em sua luta pela proteção dos cerrados e de seus territórios vai continuar. A presidenta Dilma, que conheceu os porões da ditadura e viveu na carne este crime hediondo, tem o poder de tomar uma decisão que vai contra os interesses da mineração e do governo do estado de Minas Gerais. A continuidade da tortura que sofre as comunidades extrativistas está nas mãos da presidenta.
Estes interesses estão muito bem articulados. Enquanto os guardiões do Areião encontravam-se em Brasília no VII Encontro dos Povos do Cerrado, um fogo criminoso foi ateado dentro da área reivindicada para criação da RDS Nascentes dos Gerais.
Mas, a vinda a Brasília foi muito importante para todos extrativistas dos cerrados. Afinal descobriram que é daqui, do Planalto, que sai a ordem de operação das máquinas de destruição que eles enfrentam com o próprio corpo nas altas chapadas da Serra do Espinhaço, no extremo norte de Minas Gerais. Máquinas que sobem a serra e vão assassinando, em lenta agonia, os povos que aprenderam a conviver com os cerrados brasileiros. E tão bem retratada no Vídeo: ROMARIA DO AREIÃO!
Estão retornando para Minas Gerais, mas aprenderam que a frente principal de luta está aqui no Planalto Central.
Pelo imediato decreto de criação da RDS Nascentes dos Gerais (Ex RESEX Areião Vale do Guará)!
Pelo imediato encaminhamento de criação de outras 19 RESEXs nos Cerrados Brasileiros!
Pelo imediato reconhecimento e demarcação dos territórios indígenas dos Cerrados Brasileiros!
Pelo imediato reconhecimento e demarcação dos territórios quilombolas dos Cerrados Brasileiros!
Pela proteção do Xingú e imediata suspensão da Barragem de Belo Monte!
Não ao genocídio que enfrentam os povos e comunidades tradicionais dos Cerrados Brasileiros!
Não ao genocídio dos Povos  Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul

Brasília, 15 de Setembro de 2012





segunda-feira, 12 de setembro de 2011

. . . A OPÇÃO PELA DESTRUIÇÃO

As minas eram tantas, aqui, acolá, eram gerais. Assim os paulistas se referiam, quando em suas entradas e bandeiras, iam encontrando as catas de ouro, diamante, nas vastas regiões de montanhas do que veio a ser denominado, a seguir, de Minas Gerais. Por isso, Minas Gerais. Mas, a exploração das minas não teria ocorrido sem os gerais. Quando a mineração de ouro foi cavando seus primeiros buracos, o minério não teria subsistido se não tivessem quem o catasse, quem os cavasse. E para assim acontecer, quem os catasse, quem os cavasse, estes precisavam de alimentos. De Comida. Foi a partir dos gerais, dos “baianos” que, subindo o rio São Francisco, veio o alimento. Ainda antes das minas. Estes iam plantando em suas margens as fazendas de gado, principalmente, nas vastas planícies e planaltos de caatinga, de mata seca, dos cerrados. E, com as fazendas, com o povo miúdo, as roças, as lavouras, as criações, a Comida. Assim, desde o começo, o nome emblemático de Minas Gerais toma outro sentido. Enquanto uma parcela dos ocupantes se preocupava com a exploração minerária, nas MINAS, outros se ocupavam com a produção de alimentos, nos GERAIS. Os gentios, os índios que aqui viviam eram estorvo, principalmente quando eles resistiam ao trabalho escravo, quando eles resistiam à ocupação branca de suas terras. Mas, com eles os baianos aprimoraram o cultivo da terra, com eles conheceram o milho, a mandioca, as abóboras, os feijões, o abacaxi, a pesca, os animais de caça, as plantas de cura. E, não podemos esquecer ainda neste primeiro parágrafo, que as minas de ouro, de diamante podiam ser exploradas porque das montanhas de Minas também minava água. Muita água.

O tempo passando, as minas de ouro, diamante, exauriram, então, brancos, negros, mestiços, foram em busca de outras formas de viver. Adentraram pelo sertão. Foi quando a economia agrícola e pastoril forjou a ocupação das montanhas, das planícies e dos planaltos de Minas Gerais. Mas, quando no século seguinte, estamos falando agora do século XX, o Brasil faz a opção pela industrialização, a riqueza mineral do subsolo de Minas Gerais desponta como mais uma possibilidade econômica. Possibilidade que vai tomando conta não apenas da economia, como também da política, e, a seguir, de uma quase totalidade. Minas Gerais passa a ser pensada quase que exclusivamente a partir de Minas. Dos Mineiros. Dos Gerais, nada muito mais que os votos. Os vastos gerais e seus povos são encobertos. Surgem, muitos anos depois, pelos surtos de seca, dos flagelados, forjados então pelo manto da miséria, da fome. Toda uma rede de clientelismo, do coronelismo, formados neste período, subsiste de forma conveniente, aos interesses dos mineiros.

O tempo passa, pouco muda. O período FHC cede espaço para o período Lula. Com ele a esperança de outro Brasil, um Brasil de todos. O Brasil muda, o país mudou. Mas, sustentar a mudança não é uma tarefa fácil. O crescimento econômico é a mola que mantêm o sonho do consumo. Todos consumindo. Automóveis, televisão, computadores, geladeira, ar condicionado, refrigerantes, garrafas pet, celulares ... Os buracos da era do ouro e do diamante desaparecem frente às crateras que vão consumindo montanhas e mais montanhas... As águas de Minas vão minguando, sujas e contaminadas, precisam ser captadas cada vez mais distante. Os alimentos, estes, vão sendo produzidos de forma industrial, embalados pelos fertilizantes químicos, agrotóxicos, e agora, transgênicos, a mais nova modernidade. Mas, as montanhas de Minas não estão sendo suficientes. Vão então em busca das montanhas dos Gerais. As serras do Espinhaço, que corta os Gerais, é a nova fonte de cobiça. Vale, Eike Batista, MMX, Carpathion, são os grupos dos mineiros, que nem de Minas mais são, encarregados de levar a boa que chamam de nova.

Hoje, não temos mais dúvidas nenhuma que precisamos mudar. Todos já estamos sabendo que o clima no mundo está mudando, rapidamente. Todos sabemos que este estilo de vida que sustenta o crescimento não tem condições de se manter. Não sabemos? Sabemos sim. O país mudou! Mudou? Minas Gerais, mudou! Mudou? Mudou nada. Infelizmente, a opção está sendo pela destruição. Destruindo as minas de água que hoje, todos sabemos, são fundamentais, o mais importante de tudo. Destruindo os povos dos gerais. Sim, aqueles que são conhecidos como geraizeiros, vazanteiros, Xakriabá. Povos que souberam conviver com os ecossistemas, que ainda tem esta sabedoria, conhecimento que se torna fundamental neste momento em que tudo é norteado pela capacidade de consumo. Consumo assentado na destruição. Mas, embalados pela inércia, continuamos no mesmo caminho. É mais fácil, afinal, o sistema funcionando é mais fácil. É como se não fosse com a gente. Apenas noticiário de televisão. As enchentes, as secas, as queimadas, a radioatividade, os alimentos contaminados. Damos a nossa contribuição fechando um pouco mais as torneiras, separando o lixo reciclável, para tudo continuar na mesma. Até quando chegar à nossa porta. Então, não teremos mais para onde fugir. Não teremos mais como fugir.

Ah, estão falando do decrescimento. Eu ouvi. Você já ouviu?

Carlos Alberto Dayrell

Montes Claros, 11 de setembro de 2011

quarta-feira, 13 de julho de 2011

PEQUIZERÃO - O MAIOR PÉ DE PEQUI DO MUNDO

Vocês sabiam que o maior pé de pequi do mundo está localizado no Norte de Minas? Mais precisamente no município de Montezuma, em Montezuma, a cidade que possui um balneário de águas quentes, lá mesmo. Pois foi neste município, na comunidade de Roça do Mato, que foi identificado o maior pé de pequi do mundo. Ele é imenso. Anualmente são centenas de pessoas que vão até lá para admirar esta maravilha da natureza.
E existem dois movimentos importantes para garantir a preservação deste monumento. Tombamento através de lei municipal e a criação de uma Reserva Extrativista Geraizeira.
Se você quiser ir até lá é procurar o Douglas, Secretário de Agricultura e Meio Ambiente do Município de Montezuma, ou o José da Silva, liderança extrativista geraizeira de Roça do Mato.

domingo, 21 de novembro de 2010

Ao som de Zeca Afonso escuto uma homenagem a Alípio de Freitas.

EMBAIXADA DE PORTUGAL NO BRASIL: Alípio de Freitas - um português na luta pela democracia no Brasil

http://www.youtube.com/watch?v=RBW4UA3KIOM

Tive a oportunidade e honra de poder trabalhar com Alípio de Freitas durante dois anos em Moçambique. Estávamos lá, sob o Governo de Samora Machel, querendo contribuir com a revolução socialista que enfrentava dilemas e desafios. Dilemas e desafios que permanecem nos dias de hoje a todos que ansiamos pela revolução. Não sei se conseguimos deixar alguma contribuição para aquele vasto país de tantas histórias, de diversidades tão singulares. Mas, a oportunidade que tive de conhecer e conviver com Alípio, e com ele seus irmãos moçambicanos, de me encantar com os seus sonhos Moçambique, de ouvir suas histórias, lembranças de um Brasil onde o anseio de liberdade transformou-se em uma triste sina de sofrimento de seus filhos que ousaram a levantar a voz. A ditadura inclemente e cruel foi uma das faces de um sistema que não ousava dividir lucros, não ousava dividir riquezas ... como até hoje, um sistema que não aceita que outros o façam.

Voltei ao Brasil, trazendo juntos dois filhos e muito aprendizado. Com ele aprendi com a revolução política que não tivemos. Sufocada, vimos, muitos anos depois, com Lula, uma revolução social que dá seus primeiros passos, ainda em andamento ... mas pouco antevemos por uma revolução ecológica ... uma revolução que possa garantir o futuro de nosso viver ... às vezes desanimamos mas, ao ouvir e ver Alípio de Freitas, a esperança se renova!

Para ele, toda a nossa admiração e respeito!


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

ATAQUE AOS VAZANTEIROS

Órgãos ambientais de Minas Gerais aterrorizam mais uma vez comunidades ribeirinhas guardiãs do rio São Francisco


Visita da Comissão Especial de Direitos Humanos na Ilha da Ressaca - Quilombo da Lapinha

As Comunidades Vazanteiras das ilhas de Matias Cardoso e Manga, juntamente com a Comissão de Povos e Comunidades Tradicionais do Norte de Minas vêm a público denunciar: em menos de quatro meses, três ataques são perpetrados às comunidades vazanteiras do São Francisco nos municípios de Matias Cardoso e Manga em Minas Gerais. O primeiro aconteceu em julho de 2010. Policiais militares invadiram o acampamento São Francisco, do Quilombo da Lapinha, ameaçaram mulheres e crianças e levou preso até Jaíba o ancião Jesuíto Gonçalves. No dia 23 de setembro, agora na Ilha de Pau Preto, três policiais de Manga foram até a comunidade do Pau Preto, entraram em algumas casas dos vazanteiros, intimidando as famílias a procura de armas de fogo, amedrontando as famílias e coagindo até uma criança de 10 anos. Agora, no dia 05 de novembro de 2010, o Gerente do Parque da Mata Seca, senhor José Luiz acompanhado por um cabo, dois policiais de Manga e três brigadistas, foram até a Ilha de Pau de Légua. No momento da ação, ao serem abordados e ameaçados, os vazanteiros que ali se encontravam cuidando de suas roças perguntaram aos mesmos se tinham mandado da Justiça para executar esta repressão. Sem nada apresentar, se dirigiram aos lotes do senhor Antonio Alves dos Santos e José Ranolfo Moreira de Souza e derrubaram os barracos, quebraram as telhas, destruíram as hortas, deixando sobre os escombros as ferramentas de trabalho, vasilhas e roupas, além de levarem a rede e a tarrafa.

Em menos de quatro meses, três ataques justamente às comunidades que denunciaram à Comissão Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – DCCPH / SDH / PR – ligada à Presidência da República, a crítica situação de insegurança alimentar vivida pelas comunidades ribeirinhas do rio São Francisco. Comunidades com uma história de séculos de contribuição ao abastecimento regional e nacional com produtos agrícolas oriundos de seus cultivos nas vazantes sanfranciscanas. Condição que começou a mudar quando passaram a viverem encurraladas, primeiro pelos fazendeiros durante a década de 1970, agora pelo IEF a partir dos anos 2000. Comunidades que hoje passam fome, tendo que se sujeitar a programas assistencialistas porque não podem mais cultivar em seus territórios ancestrais.

O Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana nomeou uma comissão especial para fazer averiguações, o que aconteceu entre os dias 07 e 09 de julho de 2010. Além de visitar as três ilhas, a comissão reuniu em Belo Horizonte com a diretoria do INCRA e do IEF.

É preciso lembrar que estas comunidades vivem em terrenos da União e que cabe à SPU – Secretaria de Patrimônio da União – a sua regularização. A SPU e o INCRA prometeram envidar esforços para promoverem a regularização. E a SPU comprometeu em enviar uma equipe até a região para iniciar a demarcação das terras da União. Mas, a resposta dos órgãos ambientais de Minas Gerais àqueles que se constituem como os guardiões do rio São Francisco, àqueles que dependem da vitalidade do rio para sobreviverem foi a intimidação e a violência. Há três anos, desde 2007, que as comunidades ribeirinhas vêm propondo negociação com os órgãos ambientais para que possam conviver pacificamente com os parques estaduais e ajudar na preservação dos ambientes ribeirinhos através da criação de Reservas de Desenvolvimento Sustentável Vazanteiras. Reuniões e reuniões já foram realizadas, levando as comunidades à exaustão e à descrença. Já apresentaram até ao governador em exercício, Dr. Antonio Anastásia, quando em visita a Matias Cardoso no dia 08 de dezembro de 2009, data em que se comemora o Dia do Gerais, suas denúncias e suas propostas. A resposta que vem obtendo é silêncio e violência. Ou então medalhas como as que foram distribuídas a 92 prefeitos do Norte de Minas, além de 110 personalidades de diversos setores.

Vemos que é forte a pressão do Governo do Estado de Minas para criar áreas protegidas a qualquer custo como compensação ambiental do Projeto Jaíba. Para garantir a vasta degradação ambiental provocada por este projeto, avança sobre territórios de comunidades tradicionais, justamente sobre aquelas que sempre souberam usar com parcimônia os recursos da natureza. Vêm cometendo graves irregularidades como a de indenizar empresas e fazendeiros pagando por áreas de terras que pertencem à União e que, alem disso, estão sob disputa por comunidades quilombolas. Como aconteceu recentemente ao adquirir a Fazenda Casa Grande da FAREVASF, fazenda que expropriou as famílias do Quilombo da Lapinha na década de 1970, ignorando totalmente o povo do lugar.

Um clima de revolta generalizada vai se instalando às margens do rio São Francisco. Os verdadeiros guardiões do Rio são enxovalhados pela elite branca de ambientalistas, de políticos que moram na capital mineira, contra os negros, os baianeiros, os nordestinos, população que compõe a maior parte de nossa população ribeirinha.

Pois, no dia 20 de novembro de 2010, Dia da Consciência Negra, queremos uma reposta diferente. Não nos basta a distribuição de medalhas. E não vamos ficar esperando!

Apóiam esta carta:

Comissão Pastoral da Terra – Norte de Minas;

Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas – Montes Claros, MG;

Matias Cardoso, aos 17 de novembro de 2010


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

ANTES QUE O CERRADO DESAPAREÇA


No dia 11 de setembro de 2009, Dia Nacional do Cerrado, estiveram em Brasília milhares de brasileiros, dos estados de Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Mato Grosso Sul, Mato Grosso, Maranhão, Tocantins, Piauí, Rondônia, Roraima, Bahia e Distrito Federal. Saíram de suas casas tão distantes e vieram se somar com tantos outros brasilienses nesta capital fincada no coração do Cerrado. Vieram a Brasília com um único propósito: Evitar que o Cerrado brasileiro desapareça, deixando somente poeira e lembranças.

Hoje, 20 de outubro de 2010, estamos novamente aqui em Brasília. Queremos manifestar as nossas preocupações e indignação frente aos rumos sombrios que tomam conta da agenda eleitoral. Como nos tempos bélicos dos generais, do DOPS, SNI, setores da elite conservadora da sociedade se mobilizam aterrorizando a sociedade brasileira associando candidaturas com imaginários religiosos. Uma estratégia suja de misturar a religiosidade popular, tão cara em nossas comunidades tradicionais, com demandas de políticas que avançam na contramão das conquistas que vimos germinar e crescer nestes últimos oito anos e que precisam ser consolidadas na democracia brasileira.

Hoje, 20 de outubro estamos em Brasília. Representamos uma parcela significativa dos povos e comunidades tradicionais dos cerrados que antes nunca aqui pusemos os nossos pés. Uma parcela significativa da população brasileira que até então estava totalmente à margem das políticas públicas. Uma parcela significativa da população responsável por algumas das características da nossa nacionalidade Brasileira alem de abastecer com gêneros alimentícios e outros produtos necessários à existência humana mercados locais, regionais, nacional e internacionais.

Somos fiadores de uma política que enxerga o Brasil como uma nação multicultural e biodiversa. Onde o desenvolvimentismo a qualquer custo e o conservacionismo de uma natureza mítica e intocável devem dar lugar a uma abordagem onde o patrimônio natural e cultural devem ser fundadores de uma nova ordem política. Onde florestas, savanas, cerrados, caatingas, campos, restingas, manguezais, veredas e os seus povos devem ser reconhecidos, respeitados e considerados em uma estratégia de desenvolvimento e de sustentabilidade nacional e planetária.

Viemos aqui manifestar o nosso apoio à candidatura de Dilma Rousseff cujo projeto de governo privilegia a democratização econômica em nosso pais e para reivindicar a construção de uma Plataforma Socio-ambiental para os Cerrados Brasileiros onde as políticas ambientais, de produção e uso sustentável sejam ancorados no reconhecimento dos territórios dos povos e comunidades tradicionais.

Braulino Caetano dos Santos
Geraizeiro e Representante da Rede Cerrado na Comissão Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais

BRASILIA, 20 DE OUTUBRO DE 2010

segunda-feira, 31 de maio de 2010

GERAIZEIROS REALIZAM ROMARIA RUMO AO AREIÃO





Representantes do Movimento Pequizeirão promovem, nesta quinta-feira, (03), a Romaria Rumo ao Areião cujo propósito é criar duas Reservas Extrativistas Geraizeiras (Resex) no Norte do Estado de Minas Gerais: Resex Areião / Vale do Guará, nos Municípios de Rio Pardo de Minas, Montezuma e Vargem Grande do Rio Pardo; e Resex Tamanduá, em Riacho dos Machados. A área total a ser manejada e preservada por estas duas RESEX é de 47 e 35 mil hectares respectivamente (ou seja, 82 mil ha de cerrados).


Para Carlos Dayrell do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM), umas das instituições participantes do processo de mobilização na região, a proposta de criação é uma demanda das comunidades geraizeiras e visa garantir a proteção e o uso de alguns dos últimos remanescentes de cerrados que ainda continuam relativamente preservados. "O CAA assessora as comunidades geraizeiras do Alto Rio Pardo na retomada e proteção de seus territórios tradicionais que foram e continuam sendo extremamente impactados pela monocultura do eucalipto" -, diz Dayrell.


Eliseu José de Oliveira, Coordenador do Movimento Articulado dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais do Alto Rio Pardo (Mastro), argumenta que a Romaria surgiu como uma forma de celebrar a importância da área para as comunidades que ali vivem. E também como uma forma de ampliar a mobilização e a sensibilização da sociedade sobre a importância da proteção da área.


Durante todo o dia estão previstas inúmeras atividades. A concentração será às 8h, na Comunidade de Água Boa II em Rio Pardo de Minas; às 10h, o lançamento da Pedra Fundamental do Santuário São Francisco da Reservas Extrativistas (Resex) do Areião e Vale do Guará, seguida de homenagem ao ex-funcionário do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Julio Cesar Duarte, que foi um dos responsáveis pelos estudos técnicos promovidas na região e faleceu em 2007; às 14h, será desenvolvida Mesa Redonda com integrantes do Movimento do Pequizeirão, dos Executivos Municipais envolvidos, da Promotoria de Justiça de Defesa do Rio São Francisco / Sub-bacia do Rio Verde Grande, da Embrapa Cerrados, da UFMG, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), Ibama, Instituto Estadual de Florestas (IEF), Mastro, Comissão Pastoral da Terra (CPT), Rede Cerrado - Comissão Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais. No encerramento, às 16h, será celebrada Missa. O ICMBIO já realizou levantamento parcial das famílias do entorno e o levantamento fundiário está em desenvolvimento. O percurso é de 12 quilômetros ao todo.



Uma das precursoras de todo o processo é a agricultora e extrativista Lúcia de Água Boa. Há informações de que a militante pela criação da área de preservação quase desistiu da luta. Mas sua crença a ajudou a prosseguir. Num dia de grande revolta pelas dificuldades encontradas, ela abriu a bíblia e leu "Ao lado do território de Judá, ficará a terra separada para uso especial. De Norte a Sul, terá doze quilômetros e meio de largura e de Leste a Oeste terá o mesmo comprimento dos territórios dados às tribos. O Templo ficará nessa área. Ezequiel 48 - 8". A partir de então, a luta foi reiniciada e hoje são desenvolvidas inúmeras atividades cujo foco principal é a criação das RESEX. Atualmente, várias mobilizações estão em curso pela criação das
Reservas.


RESEX - São áreas destinadas à exploração auto-sustentável e conservação dos recursos naturais renováveis, por população extrativista. As RESEX fazem parte do Sistema Nacional de Unidades de Conservação e são regulamentadas pelo LEI No 9.985, DE 18 DE JULHO DE 2000.

Para que são criadas?



  • Garantir a terra às famílias que ali moram;


  • Permitir que as famílias continuem vivendo das atividades econômicas que tradicionalmente executam;


  • Conservar os recursos naturais mediante a sua exploração sustentável, isto é, permitindo que os mesmos continuem disponíveis para as futuras gerações;


  • Organizar os moradores e capacitá-los para que, mediante o fortalecimento do associativismo, administrem a área, obedecendo a um Plano de Utilização feito por eles mesmos e aprovado pelo ICMBio;


  • Implantar alternativas de renda que contribuam para a melhoria das condições de vida
    das famílias.

HELEN SANTA ROSA, DELIO PINHEIRO, ANDREA FROES - Assessoria de Comunicação Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM)
Rua Anhanguera, 681, Cândida Câmara Montes Claros - MG 39400-000


Telefone: 38-3218-7700