terça-feira, 11 de outubro de 2016

PIQUIZERÃO: Geraizeiros comemoram 2 anos da RDS Nascentes Geraizeiras com Romaria e muita Folia


Após mais de 10 anos de luta, Geraizeiros do Alto Rio Pardo comemoram o aniversário de 2 anos da RDS Nascentes Geraizeiras. Esta UC protege as áreas de nascentes e de uso coletivo de aproximadamente 25 comunidades geraizeiras no Norte de Minas abrangendo os municípios de Montezuma, Vargem Grande e Rio Pardo de Minas.

As comemorações iniciaram no dia 04 de outubro, com a VI Romaria Rumo ao Areião. A primeira romaria ocorreu antes mesmo da criação da RDS e surgiu como momento de fé na luta para criação da UC. Agora, depois de anos de penitência para criação da UC, a romaria continua como forma de agradecimento e de continuidade das mobilizações para a implementação da RDS. Com a participação das comunidades beneficiárias da RDS, a romaria teve em sua programação um café da manhã geraizeiro com biscoito de jatobá, café de rapadura e suco de maracujá do mato, a peregrinação até o Areião, local onde será construído um santuário, Folia de Reis, almoço geraizeiro com arroz com pequi e paçoca de carne e missa na igreja da comunidade Água Boa II.
No dia 08 de outubro foi realizada uma Confraternização Geraizeira, que se iniciou no Piquizeirão, local também sagrado para os geraizeiros que se reuniram na sua sombra durante as mobilizações para a criação da RDS. Considerado o maior de todos os piquizeiros, ele sempre foi uma fortaleza na luta do Movimento Geraizeiro. Após os pronunciamentos no Piquizeirão, todos desceram para a Associação Trabalhando Juntos da comunidade Roça do Mato onde houve cinema e muita Folia de Reis.

Os geraizeiros almejam construir uma UC onde eles sejam os protagonistas e sujeitos na gestão da RDS e a criação desta unidade sirva como referência para a criação de outras no Norte de Minas como a RDS Tamanduá, que aguarda há muitos anos o seu decreto de criação para garantir a proteção de outros territórios e modos de vida geraizeiros. Nos encontros sempre reafirmam: "Movimento Geraizeiro, guardiões do Cerrado!" e "O Gerais é pra quem nele mora, não pra quem o explora!". 

Fonte: http://racismoambiental.net.br/2016/10/11/geraizeiros-comemoram-2-anos-da-rds-nascentes-geraizeiras-com-romaria-e-muita-folia/

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Alvimar de Luta, presente!







Lentamente Alvimar se foi. E (se foi) no silêncio, de mansinho, na humildade que desde sempre marcou sua vida. Para muitos, para muitas, deixou uma palavra. Preparou sua esposa, seus filhos, sua família, seus amigos.

Alvimar Ribeiro dos Santos, desde sempre, preocupava-se com as pessoas, com a organização. Onde existia opressão ele estava para denunciar e lutar junto. Em vida, foram muitas, as pessoas e as organizações que o convocaram, quantas e quantas vezes? Que o convocaram para pedir sua opinião, para se aconselhar sobre as lutas que travavam pelo direito, pela vida, pelas águas, pela terra, pelo cerrado, pelos territórios.

Alvimar de luta, sempre presente em todos os momentos e, principalmente, naqueles mais difíceis. Se quiséssemos, em pouco tempo colheríamos centenas e centenas de depoimentos, depoimentos que são o livro de sua vida. Nunca escreveu um livro, mas foram muitos os doutores, as doutoras, as mestres, os mestres que foram os seus alunos, que sobre ele escreveram, que para ele escreveram. Era com humildade e determinação, muita determinação, que orientava as pessoas, as comunidades, as organizações para a vida, para a luta, pois o seu lema era o “bem-viver”.

Alvimar de luta, o conhecemos desde sempre na comunidade, na paróquia, no sindicato, na CUT, na CPT, na Comissão Regional de Desenvolvimento Sustentável do Norte de Minas. Do CAA, foi um dos seus primeiros construtores, assim como foi do Norte de Minas de luta, das Minas Gerais de luta. Dos operários, dos posseiros, dos lavradores, dos sem terra, dos agricultores familiares e dos assentados de reforma agrária, das comunidades tradicionais, dos índios e dos quilombolas. Alvimar de luta dos camponeses, dos trabalhadores do campo e da cidade.

Quantas e quantas pessoas ele já abençoou em suas passagens pelo sertão?  Quantos latifundiários, grileiros, ele enfrentou juntos e na defesa dos camponeses? Quantas empresas, reflorestadoras, mineradoras, promotoras do trabalho escravo, da degradação humana e ambiental ele enfrentou?  Quantos e quantos assassinatos ele evitou? Quantas e quantas denúncias saíram de suas mãos, denunciando a degradação, a destruição, a omissão do estado subserviente aos interesses das elites conservadoras do país? Quantos assassinatos ele presenciou? Quantos cadáveres ele desenterrou para que a justiça se fizesse, sempre e sempre na defesa do irmão?

Alvimar de luta, era com humildade que chegava a todos os lugares. Nos últimos anos ele envolveu a fundo na unificação das lutas camponesas, dos povos das águas e dos cerrados,  camponeses todos, para enfrentar o grande desafio imposto pelo capitalismo. Seus amigos não são amigos de poucos dias. Ele os cultivava em casa, dentro de sua casa, com os vizinhos. Ele os cultivava nos sindicatos, nas comunidades, nas pastorais, nas organizações de base, nos movimentos sociais. Nunca buscou honrarias, nunca buscava o reconhecimento. Mas a sua família, os seus amigos, o seu bairro, sua paróquia, a cidade, O SERTÃO O RECONHECE!

Alvimar de luta foi condecorado pelo sertão, condecorado com a honraria da coragem.

Alvimar de luta, nos preparou para a vida, para a esperança, pela fé. Preparou-nos para a sua despedida ao encontro com CRISTO. E para este encontro ele foi de mansinho, no silêncio da noite, da madrugada, do dia chegando. Não queria choro, mas não tem como as lágrimas não escorrerem regando o legado que deixou aqui na terra juntamente com sua esposa, D. Lúcia, com os seus irmãos, com os seus filhos e filha, netos e netas. Legado que frutifica em todas as comunidades por onde passou, em todos os sindicatos, em todas as pastorais.

Alvimar de luta deixou o CAA como legado, que as comunidades do CAA muito agradecem. A vida, a terra, as águas, os cerrados e os seus povos agradecem. Que continue a nos abençoar nesta nova caminhada nos céus do Senhor!

Montes Claros, 19 de agosto de 2016

Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas
Articulação Rosalino de Povos e Comunidades Tradicionais
Cooperativa Grande Sertão 
Instituto Guará – Agroecologia, Educação, Pesquisa & Desenvolvimento

domingo, 5 de julho de 2015

Amar o que for de mais novo

Amar o que for de mais novo
Como o novo que vai
                                   e
                                        volta
com a mesma idade que
acaricia nosso corpo
                                   avançando
                                                    ou
                                                    r     
                                                  e                                                     
                                                c
                                              u
                                            a
                                          n
                                        d
                                      o
no tempo das idéias que não respeitam
mãos macias
                        ou
                                   calejadas
e faz de cada dia o amar
do que for de mais novo
Seja a casa de portais encanecidos
seja o rosto brilhando as pérolas
                                                   de um olhar
seja o gosto pelo sol
ou a certeza mais bruta
que violencia os corações
                                         dos marginalizados
e que em tudo isto resta um pouco
mas, muito mais que um só abraço possa conter

Amar o que for de mais novo
não o que for regido pelo tempo cronológico
mas, pelo tempo que transborda
no coração
                        de
                                   uma
                                               emoção
ou o que incendeia o rosto
no ódio desvairado contra as instituições
que sobrevivem à dízimos de sangue

Amar o que for de mais puro
mesmo no tempo em que pureza
e violência se confundem
assim como se misturam
o abraço amigo
e a estocada de um canivete
                                               bêbado
ambos guardados na mesma cela
de um dia de santo qualquer

E o que for de mais novo
ser o mais velho de nossos corações
e o que for de mais belo
ser o mais sincero de nossas emoções

E o que for do amigo

ser nosso por toda a vida

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O tempo, este, interminável!

Em outras eras o tempo para ouvir o eco (ou os ecos) de uma mensagem enviada em forma de carta era interminável. O papel de carta era fino, para não pesar, o peso medido em gramas. As palavras, as frases, eram pensadas, medidas, se errasse, às vezes, era uma folha a mais que se perdia. E era ao fechar com a goma arábica e em seguida postar, que o tempo começava a ser medido.

Contava-se as horas, os dias, as semanas ... o tempo era calculado para a carta chegar, e vivia-se este tempo medido, minuto a minuto. E a expectativa: a carta chegou? não houve desvio? se fosse em segredo, então, não caiu em mãos erradas? A partir de então era o tempo do eco, este sim, era interminável. A caixa de correios rebuscada, esquadrinhada, todo dia. A a vinda do carteiro ansiada, se parasse em frente então, o coração descompassava. E como!

Hoje vivemos o momento da instantaneidade, trocamos mensagens a todo momento, podendo ser em qualquer hora, em qualquer lugar. Ah, mas o tempo para ouvir o eco, os ecos? estes continuam intermináveis, pouco mudou sua natureza, o coração em si descompassado, mesmo que os signos já não sejam os mesmos. Da mesma maneira, mesmo que com frases entrecortadas, no imediato, a imaginação, os sonhos, as ilusões, se misturam com a mesma rapidez com que as palavras são escritas e enviadas ... após o clique, então sem retorno, mesmo que na instantaneidade, as palavras continuam medidas, as frases calculadas, mesmo que com a tecla del, o copia, o corte, o recorte e cole, o tempo continua interminável. Mesmo os tempos sendo outros, em cartas ou sms, retratos ou imagens instantâneas, sonhos e ilusões se misturam,  o velho e o novo, mesmo que os tempos sendo outros, sonhos e ilusões se refazem, se desfazem.

O tempo, este, interminável, foi o tempo da partida, este continua aqui, interminável, o senhor continua aqui e, com ele, confabulando, a alegria da volta e, com ela, o encantamento.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Cacunda de Librina

ou

Quando as delicadas névoas são tomadas 
pelas densas fumaças das carvoarias



Se o homem destrói ele paga por isso, 
só que nós estamos pagando por uma coisa que não foi nós o culpado direto
 ... esse é o famoso progresso para desenvolver a região!

Ontem o Arcilio Elias dos Santos pediu licença a seus familiares e amigos e resolveu dar um passeio no céu. Assim, de repente, sem avisar a quase ninguém, ele nos deixou.

Quem é o Arcilio Elias dos Santos? 

Se você fizer uma pesquisa no Google ou em qualquer outro sistema de pesquisa na web, de cara aparecem dois rumos de arquivos relacionados: um primeiro onde reportagens e artigos em que Arcílio é apresentado como geraizeiro e as notícias fazem relação a lutas contras as monoculturas de eucalipto, com mapas de conflitos ambientais, ou como agricultor em um livro intitulado Agricultores que cultivam árvores no Cerrado - seu nome está lá. O outro rumo de arquivos está relacionado com a justiça e neste caso aparecem os Menegheti, a Replasa, a Florestaminas, processos que estampam conflitos relacionados com grandes plantações de monoculturas de árvores nos sertões de Minas Gerais.

Mas, se você colocar no sistema de pesquisa do Google ou de outro sistema qualquer o nome Cacunda de Librina, de imediato a web mostra um sem número de sites onde um documentário é apresentado em que o geraizeiro Arcilio é um dos personagens centrais. Neste documentário ele conduz uma leitura inusitada sobre os cerrados, sobre os seus povos, suas agriculturas, debatendo inclusive com os grandes pesquisadores da ciência florestal a partir do olhar de um intelectual nativo, geraizeiro, catrumano. Com profundidade e leveza, ele vai contando histórias ao sair de sua casa desde a comunidade de Vereda Funda, município de Rio Pardo de Minas, em direção à II Conferencia Geraizeira que aconteceu em 2007 na comunidade de Vale do Guará, município de Vargem Grande do Rio Pardo. Uma caminhada em que ele vai encontrando outros iguais com preciosos relatos de um povo desconhecido para a maioria dos brasileiros. Não deixe de fazer esta pesquisa. De qualquer maneira, deixamos aqui o endereço de um dos sites:

No dia 26 de dezembro de 2014 o Brasil perdeu um ilustre personagem, mesmo que desconhecido para a maioria dos brasileiros. O geraizeiro Arcílio Elias dos Santos foi um dos percussores da revitalização das antigas chácras, um sistema de produção de café sombreado associado com ingás e também com o milho, mandioca, cana, abóboras e um sem número de outras espécies frutíferas cultivadas e nativas e que possuem uma história de pelo menos 200 anos. Eu mesmo tive a oportunidade de contar as espécies manejadas em uma destas chácras em 2007. Contei, em uma área de menos de 1 ha, um total de 33 diferentes espécies e 57 distintas variedades que eram manejadas pelas famílias geraizeiras para diversos fins[1]. Um verdadeiro tesouro genético, um banco de germoplasma vivo mantido sob o bosque dos Cerrados e formações de transição de Mata Atlântica. Estas chácras quase que foram totalmente eliminadas durante a ditadura militar brasileira, pois foi de sobrevoo que os militares e burocratas governamentais enxergaram esta região como “vazios” econômicos e também de gentes. Neste sobrevoo as Chácras foram confundidas com os Cerrados aparentemente não antropizados. A produção que daí saía não fazia parte das estatísticas do IBGE.

Em poucos anos, com financiamento e infraestruturas públicas, grandes plantações de monocultura de eucalipto passaram a dominar a paisagem dos gerais sem fim onde o nosso Arcílio vivia. Chegaram os tratores com correntões, os machados cederam lugar às motosserras, os fornos de carvão substituíram os engenhos: o Governo de Minas arrendou ou alienou estas terras a firmas de reflorestamento como se aí não vivessem ninguém. Nos anos 1970 e início dos anos 1980 não vivíamos em um Estado de Direito e as poucas vozes de resistência foram caladas por jagunços ou militares. As chapadas foram tomadas pelas grandes plantações de eucalipto, as águas secaram e o pouco que restaram foram contaminadas, as chácras foram abandonadas, encobertas pelo manto da modernidade, pelas fumaças das carvoarias e pelo trabalho escravo.

Na década de 1990 o Sr. Arcílio, ao assistir uma palestra do engenheiro florestal Álvaro Carrara do CAANM[2] sobre agroecologia e sistemas agroflorestais, foi um dos primeiros que rumou para sua chácra associando estes novos conhecimentos com o conhecimento centenário dos geraizeiros do Alto Rio Pardo. E, poucos anos após, passamos a tomar o café do seu Arcílio, torrado e empacotado na comunidade de Vereda Funda, hoje Projeto de Assentamento Agroextrativista Veredas Vivas. Foram centenas de visitantes que, a partir de sua chácra, refizeram o caminho de volta em direção a um futuro mais sustentável, aplicando os conhecimentos que ele, que sua família, que sua comunidade acabou por se tornar referência. Hoje a Embrapa Cerrados, o CENARGEN, o ICA UFMG, a UNIMONTES, entre outras instituições de ensino e pesquisa mantém ali diversos projetos de pesquisa e extensão.

O Sr. Arcílio foi um dos condutores, e o fez com muita maestria, participando da Rede Alerta contra o Deserto Verde, de visitas de intercâmbio com o Espírito Santo e Sul da Bahia, na construção da proposta de autodemarcação de território geraizeiro, na articulação com a Via Campesina para a retomada do primeiro território tradicional geraizeiro, hoje um projeto de assentamento agroextrativista que está sendo implantado pelo INCRA de Minas Gerais. Foi com a experiência de agricultor, de guardião da agrobiodiversidade e de militante que o levou assumir um cargo de diretor no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Pardo de Minas, a militar no recém criado Movimento Geraizeiro, passando então a animar muitas outras lutas, a revitalizar muitas outras chácras, a levar esperança a muitas outras comunidades encurraladas pela monocultura do eucalipto.

Estas são algumas das facetas de nosso amigo Arcilio que foi tão precocemente vitimado por uma doença que se queria livre nos sertões de Minas Gerais – a Doença de Chagas. Esta é uma herança que os serviços de saúde pública de Minas Gerais e do Brasil mantêm convenientemente no anonimato. São muitos os jovens, as jovens que por aqui morrem de repente, assim, sem tempo de avisar a ninguém. Assim foi com o nosso Arcílio. Um profundo conhecedor dos cerrados, de suas dinâmicas ecológicas e hidrológicas, um profundo conhecedor da alma humana, pois com seus casos, com sua forma de contar histórias de uma maneira aparentemente tão despretensiosa, ele navegava nas mais profundas filosofias.

Eu até acredito, eu até penso comigo, que tem um instituto de pesquisa que são comprados pelos grandes plantador, ou pelas certas entidades do governo, 
que as pesquisas deles são compradas para falar perante o povo 
que isto não traz problema de água ...


Uma homenagem da Equipe do CAA NM aos familiares e amigos de Arcílio.




Foto: João Roberto Ripper
Texto: Carlos Dayrell



[1] Veja em Monção & Dayrell  A Cachaça No Contexto Histórico, Cultural e Econômico da Região do Alto Rio Pardo – Minas Gerais. Relatório Final, Setembro de 2007.
[2] Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas.




quarta-feira, 9 de abril de 2014

Agradecimentos: mesmo que ainda sem entender!



Agradecemos a Deus, muito, mas muito mesmo, pois tivemos a honra, tivemos a alegria, tivemos a oportunidade de conviver com a senhora, D. Dochinha, por tantos anos. Por 97 anos como diria a senhora, que a cada aniversário sempre nos informava os anos que iria viver, sempre um ano há frente, a gente comentava que iríamos comemorar o centenário, a senhora sempre afirmava que sim, agora estamos aqui sem entender.

Motivos para agradecer o tempo da senhora conosco, temos demais. E quando a gente fala assim, com certeza não somos apenas nós, os filhos nascidos da união da senhora com nosso querido pai, o seu Geraldo. Os filhos, as filhas da senhora, são muitos, muitas. Os irmãos, as irmãs, muitas! Nós sentimos isso enquanto a velávamos na Capela de São Vicente de Paula, um grande conforto, cada pessoa que chegava abraçava cada um de nós, filhos ou filhas, genros ou noras, netos ou netas, bisnetos ou bisnetas, sem querer repetíamos também as palavras de sentimentos que nos era passada, sentimentos para todos nós! Éramos assim que sentíamos, todos nós que lá estávamos, muito sentidos pela partida da senhora.

Motivos para agradecer, até nestes últimos dias, nestes últimos momentos, temos demais. Primeiro o carinho e atenção que a senhora recebia dos médicos e médicas, atendentes, enfermeiras e enfermeiros. Carinho que também chegava até nós, nos confortando. Já recuperando da cirurgia, todos nós pudemos ainda senti-la, ouvi-la, sabíamos que estava nos ouvindo. Tivemos então oportunidade de falar com a senhora tantas coisas, aquelas coisinhas que às vezes a gente evitava falar, pois tivemos a oportunidade de falar, da senhora nos escutar, nos perdoar, ser perdoada, transmitir mensagens que nos chegavam de longe, de muito longe, desde Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre, desde o Sertão, de Montes Claros, Montezuma, desde a Europa, Córdoba, Espanha, Austrália e África. Muitos lugares, muita oração, muita energia que chegava até a senhora, mensagens esta que também nos confortavam!!!

Seus últimos momentos, não temos como nos esquecer, bem atendida, na calidez de uma noite que seria tão longa, no momento que seria o último suspiro, na mesma hora, estávamos todos de braços dados, na sua casa no Bairro das Palmeiras, na casa de seu filho na Quintino Bocaiúva, orando o Pai Nosso, a Ave Maria, orações que senhora nos ensinou desde criança. Abraçados estávamos todos, sabendo, como a senhora gostaria que estivéssemos mesmo, abraçados, sempre abraçados, este era um dos seus ensinamentos. Então, nesta hora de dor tão grande, foi também o conforto que tivemos para regar as lágrimas que corriam, que desciam, sem barreiras. Estávamos todos abraçados no momento em que partia!

Sem entender passamos todo o velamento. A senhora lá tão linda, de rosa, como gostava de se vestir em vida, eram tantas pessoas, não tínhamos ideia de tanta gente que a circulava, neste momento de despedida, estavam lá as mulheres do Grupo Convivência em sua roda, orando, louvando, o Folcolares com suas mensagens de esperança, a Guarda de Nossa Senhora Rainha devidamente fardada, estava lá o Congado com os tambores silenciados pela quaresma, no rito de passagem, com as rezas de entrega da senhora ao Senhor, estava lá o Padre Ercílio, que em nome dele, todos os outros cinco padres e ministros, nas orações mediadas pelo Evangelho de Cristo nosso Senhor e, em todos estes rituais, nossas almas sendo preparadas, confortadas ao saber que estava sendo bem entregue ao senhor nosso Deus.

Com certeza em meio às palmas, às orações, às canções, ao som da flauta ou da gaita ... “amigo é coisa, para se guardar”... o aplauso maior tenha sido à aquelas pessoas tão queridas e que, distantes por questões que pouco sabemos explicar, ouve o seu chamado e se irmana Naquele que é maior, naquilo que é o mais importante, no abraço que reúne as famílias em torno de Deus nosso senhor, em um conforto imensurável a marcar a partida da senhora do meio de nós!

Da mesma maneira, sem nada entendermos, no momento mais triste da despedida, no momento da saída da capela, o silêncio quebrado pela força da tempestade que lá fora caía, dos relâmpagos que repercutiam nossa dor desta partida, seria esta a última resistência de D. Doxa? Pois não é que, em seguida ao pedido silencioso à Deus, a chuva não pára naquele mesmo momento e o Senhor nos manda dois arco-íris para cortejar a saída de D. Dochinha?

Não tínhamos mais o que falar a partir deste momento, enquanto víamos no céu, entre os arco-íris, no entremeio das nuvens escuras, um clarão de luz iluminando a tarde! Era a Senhora a recebendo, e nós daqui da terra, confortados, a entregando! Foi então que, no silêncio, o corpo foi repousar ao lado de seu esposo, de sua irmã.

Agora, neste momento tão especial, nesta Igreja que a senhora nos educou, no meio de tantas pessoas queridas, desta família maior que a senhora tanto cultivou, família que hoje, desde Sete Lagoas, se espraia Minas Gerais a fora. Amigos sei que a senhora tem em Jequitaí, cidade onde nasceu, em Brejo dos Crioulos, na Tapera, em Porteirinha, em Serranópolis de Minas, em Matias Cardoso, como também aqui em Montes Claros onde no Colégio Imaculada Conceição estudou na década de 1930, onde há poucos meses atrás comemoramos, com muita alegria, o seu aniversário de 96 anos, nesta mesma igreja de São Francisco de Assis, em seguida ao Solar dos Sertões, onde foi recebida com muito carinho pelos parentes, colegas e amigos do CAA. 

Neste momento tão especial, a todas vocês, a todos vocês, expressamos os nossos agradecimentos, aos que aqui vieram, aos que aqui não puderam vir, por sermos uma só família, e à D. Dochinha, pelos ensinamentos de viver a santidade em vida.


Igreja São Francisco de Assis, Vila Ipê aos oito de abril de 2014

sexta-feira, 28 de março de 2014

. . . confabulando com o SENHOR!


O sono não vem. As seguidas lembranças de D. Dochinha me vêm à mente enquanto ela debate, confabula: estes seus momentos de vida podem ser os últimos . . . Podem?, falamos assim porque ela sempre nos surpreendeu. É impossível dizer quantas vezes. Pouco sei de suas histórias quando morava ainda em Jequitaí, em Várzea da Palma, quando mudou para Sete Lagoas. Sei que aqui, nesta cidade, que ela declarava ser a melhor do mundo, fui o primeiro a nascer, isso em 1953. Quando veio para cá, já tinha sete filhos. Fui o oitavo. Ainda nasceram outros três. Mas sei que a iniciativa de vir para Sete Lagoas teve o dedo de Dochinha, saindo de uma pequena fazenda em Várzea da Palma, onde foram morar após o incêndio de um comércio que possuíam naquela cidade.
Em Sete Lagoas, por muitas vezes surgiu à frente de diversas iniciativas, sempre ao lado do Sr. Geraldo, nosso pai. Surpreendeu-nos por diversas vezes. Recebendo jovens das cidades vizinhas que procuravam a cidade para aqui estudar. Quantos de nós não crescemos com a casa sempre cheia, nos pensionatos que complementavam a renda familiar? Assim íamos sendo educados, em meio às pessoas que agregava em sua volta. As últimas iniciativas, posso falar com muita certeza: ao ficar viúva não concordou que A NOSSA CASA fechasse as portas sem antes quitar as dívidas que se avolumaram frente aos tributos da receita, cujo pagamento foi falseado pelo então contador.
Surpreendeu novamente, quando finalmente conseguiu repassar a loja já devidamente reparada. Convidada a ir morar com as filhas, optou por um outro caminho. Pegou suas trouxas e foi para Belo Horizonte: alugou um pequeno apartamento, entrou para o folcolares, fez curso de yoga, de alimentação natural, onde também dava pensão. Quando sentiu que estava preparada, resolveu voltar para Sete Lagoas e, de forma surpreendente, dá inicio a uma oficina de Yoga direcionada a idosos. Juntamente com um restaurante natural. Nesta época não se falava de idosos, eram simplesmente velhos! ... velhas!
Refaz, em uma jornada a partir do final dos anos 1970, uma longa luta contra o preconceito vivenciado pelos idosos e idosas, a favor da terceira idade. É quando funda o Grupo Convivência. E o faz congregando idosas que viviam na periferia da cidade. Eu, que cresci vendo-a trabalhando com a infância abandonada - quantas vezes ela nos levava até aos orfanatos para brincar com os meninos neles recolhidos? quantas vezes fomos até a periferia levando presentes, cestas básicas, material de construção, para famílias que viviam na extrema pobreza? - desde longe a via ingressando em outra frente, levantando outras bandeiras, agora contra o preconceito e a exclusão dos idosos, uma luta pelo seu reconhecimento iniciada ainda no final dos anos 1970. Ela nos surpreendeu chamando a todos e todas para o cuidado com a saúde, com a alimentação, com a necessidade de se preparar para este momento precioso da vida.
Antecipando às políticas que hoje estão consagradas, deu muitas palestras, recebeu muitas visitas, participou de audiências em Câmaras Municipais, Assembléias Legislativas, no Congresso Nacional. Foi à Espanha, Itália, Roma. Conheceu Chiara Lubich, de quem ficou amiga, apoiou a vinda do Focolares à Minas Gerais, à Sete Lagoas. Sei que esteve com o Papa e foi abraçada pelo Lula quando da promulgação do Estatuto do Idoso. O ministro Patrus Ananias era considerado, por ela, seu filho. Fez muitos milagres em vida, por isso, surpreendentemente não queria simplesmente partir.
Assim, sua vida foi se tornando para todos nós uma missão que pouco compreendíamos. Com sua natureza humana, suas implicâncias, seu orgulho e também sua humildade, quantas lições não tivemos com ela? Quantas vezes ela nos surpreendia ao ler a nossa alma, ao dizer o que precisávamos ouvir? E ela sempre dizia: era a voz do Espírito Santo. Eram milagres que fazia em vida. Sua amizade não tinha fronteiras. Recebia quem batesse à porta. Nós filhos, filhas, netos, netas, genros, noras, depois bisnetos, bisnetas, tataranetas e tataranetos, primos, primas, tios e tias fomos privilegiados, pois para ela a família era tudo. Família no sentido ampliado, pois sua família foi muito maior que todos nós. Muito maior. As lembranças desta maioridade são muitas, muitas. Amigos e amigas que adentraram na família, comungando de seus projetos, de seus ideais. Tantos? Cito um em nome todos outros: o José Raimundo, implantando o moderno Restaurante Vida Saudável; cito uma, em nome de tantas outras: Lani, que junto com Oli, seu marido, e com suas filhas, a acolheu como mãe, como avó. E tantos outros que para nós pode até se perderem no anonimato mas, para ela não, estão sempre presente. Uma gratidão imensa a todos!
Muitas foram as vezes em que, com o carro cheio, até mesmo em ônibus fretado, com agricultoras e agricultores, indo a Belo Horizonte ou de lá retornando (em lutas por direitos), ao passar por aqui já tarde da noite, nos recebia a todos, com lanches, com pousadas, com palavras de carinho e de apoio, em sua casa sempre aberta?  Assim, de repente, em Porteirinha, na Tapera, em Brejo dos Crioulos, eu recebia abraços, lembranças, presentes, que eram direcionados à senhora minha mãe.
O sono não vem. Enquanto isso sei que D. Dochinha está debatendo com os anjos se vai partir ou não. Não sabemos por quanto tempo este debate vai durar. Não sabemos. Com certeza ela vai confabular com o SENHOR, com a SENHORA, o momento de sua transmutação. Vai confabular com o Sr. Geraldo, com o Gegê, que a esperam. A hora da partida, só mesmo o SENHOR vai com ela acordar. Por isso, a surpresa, pois os milagres em vida foram muitos. Em vida como santa, ela construía os céus aqui na terra. Chamava de parosia, palavra que nunca tinha ouvido falar até então.
Estamos com ela no Hospital Nossa Senhora das Graças. Sendo atendida com um carinho imenso por médicos, médicas, enfermeiras, enfermeiros, atendentes, fisioterapeutas. Sua aura de Santa em Vida contagia a todos que a ela se dirigem. Daqui, desde este quarto, vamos orando. Sabemos que as orações estão ecoando de todos os cantos, dos seus muitos amigos. Desde o sertão de onde nasceu, atravessando continentes, chegando aos céus, esperando os resultados de sua confabulação com o SENHOR.
 Dona Dochinha, como te amamos!!! O quanto te amamos!!! Esta sua família maior cada vez mais encantada!!!              
Sete Lagoas, às duas e quatro da manhã do dia 28 de março de 2014.

Muitos foram os momentos que ela nos alegrou. 
Foi com alegria que Montes Claros a recebeu quando fez 96 anos!